Considerações sobre a crônica "Medo da Eternidade" De Clarice Lispector

Considerações sobre a crônica "Medo da Eternidade" De Clarice Lispector



A crónica "medo da eternidade" de Clarice Lispector proporciona um feliz retomo a infância vividos por todos aqueles que um dia tiveram de posse de uma bala chicles e passaram horas e horas saboreando de inicio o gosto doce a ser, findado pelo gosto amargo e talvez por isso mesmo a constância de um mastigar em busca do sabor doce perdido.

A sensação de perda, o medo, o retorno no tempo, a eternidade e finitude das coisas são elementos os quais acompanham um acontecimento, quase uma brincadeira de infância, artificio de que se vale a narradora para refletir e possivelmente os seus leitores o façam também.

"Medo da Eternidade" é mais uma crónica em que Clarice traz como personagem a figura feminina alinhando-se com critérios discorridos seja pela critica ou estudiosos. Silvia Paixão ao falar das crónicas de Clarice na revista tempo brasileiro nos ressalta que, "quase sempre femininos, os personagem das crónicas de Clarice Lispector nem sempre são nomeados" e as mulheres e as meninas são constituídas por histórias que mais valem pela interpretação que lhes é dada do que a história em si. (1991, p. 112).

É dessa forma que a menina "muito pequena" vai contando não só o fato que lhe aconteceu - ter ganhado de sua irmã uma bala chicle que nunca se acaba -mas vai deixando as marcas de subjetividade, através de suas impressões em torno da conquista de algo que parecia impossível, como podemos evidenciar no fragmento abaixo:


Eu estava boba; parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tomando possível o mundo impossível do qual eu já começara a me dar conta. (Lispector, 1992).

 


A escrita de Clarice Lispector reflete sobre questões existenciais a partir de cenas cotidianas que muitas vezes, se passam despercebidas pelas pessoas, tornando-se só mais um fato corriqueiro.


O externo invade o mundo interno que por sua vez retorna de forma reflexiva através das palavras que por si só envolve o leitor deixando-lhe a "sensação de estar diante de uma realidade construída pela linguagem" (1991 p. 116).

Através de uma linguagem clara e simples a narrativa envolve o leitor de forma que o leva a manter um diálogo com o tempo, com os acontecimentos do passado e a existência do presente através de um processo memorístico onde a narradora traz para a cena um momento que fez parte de sua história e por isso encontra-se intimamente guardado, para então surgir quando evocado. É neste sentido que Silva Paixão afirma que a crônica mantêm uma estreita ligação com a memória e a história, uma vez que a primeira é necessária para a formação da segunda.

Através da escrita, Clarice transpõe para o papel fatos que por ser literário, adquire o caráter ficcional. É na ficção que a escritora reinventa sua história, sua condição de mulher e seu modo de pensar sobre os conceitos estabelecidos na sociedade. Sua crônica mantém uma relação não só com o individual, através de um acontecimento corriqueiro da infância, mas com o universal já que "Medo da Eternidade", por exemplo, traz questionamentos como: "Perder a Eternidade?" ou a afirmação: "E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou infinito".

A questão da eternidade está presente na vida do homem em diversas situações, rítualizada nos casamentos com a frase proferida pelo padre "até que a morte os separe"; nos mitos, na crença de vida após a morte enfim, em diversas formas de comportamentos determinados pela sociedade. É desse ritual imposto que a autora-narradora através da sua escrita escapa, subverte uma ordem e reivindica a convicção de não seguir a ritual algum quando diz: "-mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim."

Anita Santana - Licenciada em Letras Vernáculas, Mestra em Estudos Literários. 

 

REFERÊNCIAS:

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. 3a ed. Rio de Janeiro: Francisca Alm. 1992.

QUEIROZ, Vera. Apresentação: Clarice e o feminino in: Revista Tempo Brasileiro, V.1 - n° 1 - 1962 p.111 - Rio de Janeiro, ed. Trimestral.


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